Infelizmente existe machismo

Esse post é bem polêmico de escrever. Ele pode ser considerado um relato, um aviso, um protesto e manifestação.

Foto tirada em san pedro de atacama
Foto tirada em San Pedro de Atacama

Sempre que eu vejo blogs, perfis e canais de mulheres viajantes essa pauta entra. Além do mais, muitas mulheres deixam de viajar sozinhas porque ficam com medo do assedio e até de coisa pior.

E elas não estão sem motivos para pensar assim. De fato, é um risco real que, nós mulheres, corremos viajando sozinhas. E também é um fato que muitas nunca passaram e nem passarão, que falam “é super de boa”, “você precisa se virar” ou coisas desse tipo. Mas é fato, isso existe e está aí…

No meu primeiro mochilão, tiveram situações onde ser mulher fez a diferença e tiveram situações que estar acompanhada de um homem também fez a diferença. Eu não sei vocês, mas isso me causa bastante revolta.

Porém, o que podemos fazer quanto a isso? Não dá para mudar de pronto a situação da sociedade machista em que vivemos e que outras nacionalidades vivem, isso também é um fato (do bem triste). Para isso, só com bastante luta e resistência. ISSO É SÓ COM BASTANTE LUTA E RESISTÊNCIA!

Sim, duas vezes mesmo.

Porque não é fácil lutar e nem resistir. O medo aparece e, realmente, coisas ruins podem te acontecer. É um perigo real. E, sendo sincera, quem em sã consciência quer se expor ao perigo?

Mas será que vale a pena deixar de fazer o que se quer porque algumas pessoas (antes que alguém faça um fuzuê) do sexo oposto se acham no direito de invadir seu espaço e até de desrespeitar como cidadã e ser humano?

A resposta, para mim, é não. Mas cada uma de nós precisa responder à sua maneira.

Digo isso querendo contar fatos ocorridos no mochilão pela Bolívia, Chile e Peru, que não merecem entrar no relato, merecem um lugar de atenção e revolta.

Quero deixar claro, antes de mais nada, que nesse mochilão, eu não viajei SÓ. Eu estava com mais 2 duas amigas e, na sociedade machista, isso quer dizer sozinhas (se é possível ser sozinha e no plural).

No primeiro dia do Atacama, só pude sair para comer depois das 22 horas. Mais uma vez, EU NÃO ESTAVA SOZINHA. Com o fechar dos bares e restaurantes, a cidade, literalmente, fica um deserto, fazendo trocadilhos mesmo. Eu estava com fome, e pensei que a fome era o grande problema, mas o problema foi ser mulher.

Entrar em um bar com homens bebendo, aqui no Brasil, já é um transtorno para nós. O tempo inteiro somos abordadas e os olhares que nos dão são para lá de intimidadores. Mas no Chile foi diferente, e para pior. Quando entrávamos em um bar ou restaurante, para perguntar se aceitava dólar e se estavam abertos, éramos literalmente cercadas. Com todo o tipo de papo, dos mais nada a ver à propostas indecentes.

E pensei que esse seria o transtorno daquela noite…

Estávamos ainda na Caracoles, a rua principal de San Pedro, quando um homem, que saiu do escuro, nos cerca, nos enche de perguntas e vendo que não seriam respondidas, e também, vendo nosso afastamento, nos persegue. Isso mesmo, ele seguiu a gente.

Éramos três! Claramente, se nós quiséssemos, tínhamos vantagem em alguma situação de violência. Eram três contra um.

Mas de algum modo, ter uma situação de risco, e não falo de qualquer risco, eu falo de um risco sexista (que nada tem a ver com sexual), onde o homem força o exercício de poder sobre a mulher, porque ele acha que pode e ganha o aval social de poder fazer, nos apavorou, e a única coisa que conseguimos fazer foi… fugir e procurar ajuda de… um homem.

Entramos em um bar que já era sabido que ia fechar. O garçom veio já falando “Yo ya les hablé, estamos cerrados”, e eu, em português mesmo (nessas horas a gente nem pensa) “Estão nos perseguindo, precisamos nos esconder aqui”.

Não sei se ele entendeu o que eu quis dizer ou se ele viu nos meus olhos o que eu quis dizer. Só sei que ele na hora fez uma cara de raiva e foi para a porta do bar, onde encontrou o homem que nos perseguia, e armou uma pequena confusão.

Nos entreolhamos e pensamos juntas, sem dizer uma palavra: é melhor irmos agora, vamos para o hostel, só queremos segurança. E assim, fizemos.

No caminho para o hostel, avistamos uma mulher, claramente, alcoolizada sendo abordada por um cara que não sabemos se eram conhecidos ou não. Ela não estava em seu controle e, aparentemente, tentava sair de perto dele.

E essa cena vai ficar para sempre na minha mente, porque, mesmo sem saber da história (e eu nunca saberei), eu quis ajudar e por estar tão assustada com a minha situação, não fiz.

No ônibus indo de San Pedro de Atacama para Arica, o “comissário” mentiu para a gente dizendo que a fronteira Chile – Peru estava fechada (e depois de tantas fronteiras fechadas a gente acreditou). Depois de 15 minutos conversando, ele solta: a cidade ta muito cheia, por conta da fronteira, vocês podem ficar na minha casa.

Não deu nem tempo da gente xingar o “comissário”. Ao mesmo tempo, um italiano que também iria atravessar a fronteira e entendia um pouco de espanhol, se meteu na conversa, porque também acreditou.

Ai ele mudou totalmente o assunto. Ele falou que já devem ter aberto e era só pegar um táxi. Deu um risinho amarelo e saiu de perto da gente. E a gente se entreolhando.

Quando já estávamos em Cusco, no Peru, fomos em busca das agências de turismo para fechar o Valle de los Incas e a trilha pela Hidrelétrica até Águas Calientes, para MachuPicchu.

Encontramos uma agência com preços bons na Av. Sol. Tudo ia perfeito até o cara que estava nos vendendo os pacotes convidar a Sarah para jantar na nossa frente, do nada. E a gente ficar com aquela cara de “que?”.

Isso aconteceu em 18 dias de mochilão. E por isso eu vou desistir? Não, de maneira nenhuma. Mas eu não posso fingir que essas coisas não acontecem, e que a gente não tem que tomar cuidado.

É um absurdo, que só por sermos mulheres, temos mais esse problema, além de todos os perrengues possíveis de uma viagem de baixo custo.

Por isso, é LUTA E RESISTÊNCIA. Não podemos deixar isso nos abater, sempre com cuidado, mas sempre lutando também. Se a sociedade é machista, a gente só pode resistir e muda-la, porque o futuro será melhor.

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Autor: Paola Groberio

Carioca, 24 anos e estudante de História na Uff. Tenta conciliar sua rotina com viagens sempre que pode, porque não consegue passar um dia sem pensar em viajar. Quando consegue, pega sua mochila e parte por aí para passar por perrengues e ter as melhores experiências possíveis.

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