Meu primeiro Mochilão – Os dias no Salar de Uyuni e atravessando a fronteira do Chile

O dia começou de madrugada. Ainda estava escuro quando acordei, e acredito que tenha sido a última a acordar, porque os meninos já estavam tomando o café da manhã. O frio era enorme, acho que nunca tinha sentido tanto frio. Me levantar foi uma tortura.

Me arrumei, tomei o café e, aproximadamente, às 8 horas da manhã Emílio estava colocando os mochilões em cima do carro, para partirmos.

Volcán Ollague
Se aproximando do Volcán Ollague
  • PRIMEIRA PARADA

A primeira parada acontece depois de mais de uma hora no carro, hoje iríamos longe. Em um caminho árido e cheio de montanhas gigantes e vulcões, com o cume nevado, uma das paisagens mais lindas que eu já vi na vida.

O primeiro destino era nos trilhos que ligam Bolívia – Chile, aos “pés” do Volcán Ollague, com direito a trem passando e tudo!

Volcán Ollague
Primeira Parada com vista para o Volcán Ollague

O tempo não tava muito bom, além do frio que fazia, ventava MUITO, e o céu tava com cara de tempestade (eu só não sabia que tipo de tempestade me aguardava).

A terra estava lamacenta, e muitos turistas aproveitavam para escrever recados e tirar fotos. O recado que eu escrevi não pode ser postado no blog hahaha.

Trilhos Bolívia - Chile
Trilho Bolívia – Chile (ainda ativo)

Ficamos, aproximadamente, uma hora brincando e apreciando a paisagem. De repente, ouve-se uma buzina, era o trem se aproximando.

Curiosidade:

Essa rota não é turística, ou seja, o trem não leva passageiros entre os dois países. Serve, basicamente, para transporte de Lítio, ou Lithium, do Chile para Bolívia. A região do Atacama é rica desse mineral e o Chile é o terceiro produtor mundial.

Quando olhar sua bateria, pense que provavelmente veio do Chile.

Trem Bolívia - Chile
O trem indo da Bolívia para o Chile
  • SEGUNDA PARADA

Passado o tempo, depois de todos tirarem fotos e mais fotos, brincarem (teve funk no meio do trilho) e admirarem a paisagem, chegou a hora de seguir para a segunda parada.

A segunda parada continua sendo para observar vulcões (na real, eu não sei se também era o Ollague ou se era outro, como o Irruputuncu), porém, subimos mais alto e, cada vez mais, frio.

Até chegar na parada exatamente, o caminho já me encantava e também já anunciava o que estava por vir.

Caminho para a segunda parada
Caminho para o mirante

E era o seguinte, estávamos a mais de 3000 metros de altitude, em um terreno muito árido, com vento e uma paisagem de tirar o fôlego, porém, com algumas ribanceiras também. E agora com uma adição, que acredito que não seja com todos que viajam para a região, NEVE.

SEGUNDA PARADA
Segunda Parada do passeio

Eu nunca tinha visto neve na minha vida, então eu estava super empolgada. Sabe aquela sensação de filme especial de Natal, aquelas crianças saindo para brincar de bola de neve e esqui-bunda? Eu estava com essa sensação.

Minha primeira bola de neve
Minha primeira bola de neve, jogada sem querer querendo em um dos meninos hahaha

Brinquei muito, e curti o lugar, mas cada passo que eu dava era um sufoco. Cansava em 5 passos, a respiração não vinha com tanta facilidade, a altitude é complicada.

Ficamos aproximadamente 30 minutos no local.

  • TERCEIRA PARADA

A terceira parada é dividia em 3. Isso porque são 3 lagunas, conhecidas como Lagunas Altiplânicas (Cañapa, Hedionda e Ramaditas ou Honda), isto é, são lagos que se formam por conta do desgelo das montanhas e vulcões nos Andes.

São o paraíso para flamingos e, sua paisagem, é de outro mundo. Você esquece que isso é Planeta Terra.

1. Laguna Cañapa

Laguna Cañapa
Laguna Cañapa

Ficamos, aproximadamente, meia hora nessa laguna.

Uma foto não consegue explicar o quanto ela é linda! E enorme!

Flamingos na laguna Cañapa
Flamingos da laguna Cañapa

Não tinha muitos flamingos nessa laguna, mas a junção das montanhas refletindo na laguna não sai mais da minha cabeça. Isso porque o dia estava nublado, imagina um dia ensolarado?

2. Laguna Hedionda

Laguna Hedionda
Laguna Hedionda

Nessa parada também almoçamos.

Emílio para o carro e avisa que teremos cerca de 30 minutos nessa laguna. Após isso, entraríamos em um pequeno abrigo e ali seria servido o almoço.

E ali ficamos, correndo atrás das lhamitas, tentando chegar perto dos flamingos, e observando esse espetáculo natural.

Uns 15 minutos depois, outro momento mágico aconteceu: COMEÇOU A NEVAR! Agora o negócio tinha ficado sério, não era apenas ter neve, estava nevando.

Esse momento mágico durou 10 minutos, ok? Porque descobri que neve e vento não são amigos. Neve, vento e frio então?

Laguna Hedionda
Laguna Hedionda (estava nevando nessa foto)

Entramos antes de passar os 30 minutos, não estava possível aguentar aquela situação.

O local tinha uma placa de Wi-Fi, me animei e fui perguntar… 30bol meia hora. E, achei melhor ficar sem me comunicar com ninguém por mais um tempo.

Emílio fez a nossa mesa, todos sentaram e começamos a devorar. Era macarrão frio com um frango bem gostoso e batata. Tinha como sobremesa banana. E, claro, Coca – Cola quente.

O banheiro também é pago nessa parada (5bol), mas é melhor ir, porque depois é só na Reserva Eduardo Avaroa, no final do dia.

3. Laguna Ramaditas ou Honda

Laguna Honda
Laguna Honda

Nessa hora, além de empanturrados por conta do almoço, a temperatura estava congelante mesmo. Então ficamos apenas 15 minutos aproveitando a laguna, e todos pediram para o Emílio partir para a próxima parada.

  • QUARTA PARADA

A quarta parada é no deserto de Sioli, onde está localizado o Arbol de Piedra. E aqui começa uma saga, que desesperou e se estendeu até a saída do Chile. A neve!

Começou a nevar muito, ao ponto de atolar os carros. Nessa hora, todos os grupos que estavam fazendo esse tour por Potosí estavam andando juntos, os guias já imaginavam o que vinha pela frente, e era mais seguro todos irem em fila indiana.

Não parava de nevar um segundo, a neve ia engrossando e ficando cada vez mais funda. Até que o primeiro carro atola. Nosso guia sai, pega uma pá no porta malas, os outros guias também e todos vão ajudar a desatolar. Isso dura 15 minutos.

Não andamos nem 10 minutos e outro carro atola. E por ai…

Neve já ficando fofa
Neve alta o suficiente para a pegada aparecer sem chão

Até que a tempestade fica tão pesada que nem visibilidade se tem mais. Emílio sai do carro e por 40 minutos ficamos lá sem saber e ver absolutamente nada, sozinhos. O medo vem, claro.

Quando a tempestade diminui, vimos o Emílio tirando foto deitado na neve, fazendo anjo de neve e afins. E a gente se cagando no carro, por nada hahaha.

Os meninos saíram para tentar ajudar. Confesso que nem me arrisquei. Tava congelante mesmo.

Com muito custo, chegamos no Arbol de Piedra

Arbol de Piedra
Arbol de Piedra na neve

Para ter uma noção, a paisagem normalmente é assim:

Arbol de Piedra
Arbol de Piedra (Imagem da Internet)
  • QUINTA PARADA

Seguimos, até porque não tinha jeito, era só em frente que podíamos ir.

A quinta parada é na Reserva Nacional Eduardo Avaroa. Paga-se 150bol, e carimbam um papel que você tem que devolver na saída da Reserva, então não perca. Nosso hostel também fica dentro da Reserva, então só sairíamos amanhã.

Passamos por toda a burocracia, usamos os banheiros e entramos de novo no carro. Agora era hora de conhecer a laguna Colorada.

Laguna Colorada
Laguna Colorada de verdade

Por que ela é vermelha? Porque ela contem uma grande quantidade de algas de cor avermelhada. E essas algas servem de alimentos para os flamingos, que acabam adquirindo a cor rosácea por conta do pigmento que elas soltam.

É gigantesca, a maior das 4 que vimos hoje e essa curiosidade a torna ainda mais especial.

Ficamos 20 minutos nesse mirante, com possibilidade de descer até a ponta da laguna, mas o frio impedia qualquer movimento.

Era hora do hostel, que não foi o que deveria ser, porque, incrivelmente, não tinha ninguém no hostel que o Emílio levou a gente. Então fomos para outro.

Dessa vez, era um único quarto com 6 camas, o que, justamente hoje, poderia ser uma vantagem, pela temperatura negativa (muito negativa) em um quarto sem calefação feito de tijolo. O hostel só tinha calefação no local de jantar, mas antes foi servido um pequeno lanche com biscoitos e café. Lá ficamos ao redor da lareira conversando com um outro grupo que também estava no hostel (dois franceses, três dinamarqueses e uma austríaca).

O jantar foi servido no mesmo esquema, uma sopa típica, prato principal e dessa vez, um vinho para espantar o frio.

Uma das minhas amigas começou a passar muito mal, era o local mais alto que a gente já tinha ido até agora (4.278 metros). Ela começou a vomitar, ter muita dor de cabeça e febre, fui correndo no quarto onde o Emílio estava deitado e pedi um remédio para o saroche, que, por sorte, ele tinha.

Não tem água nesse hostel, então sem banho por hoje. Na real, tava tão frio que tirar a roupa era fora de cogitação, o lance era colocar mais roupas.

Emílio nos avisa que , infelizmente, a reserva estava em alerta e não poderíamos visitar qualquer atração de amanhã. E para os que iriam para o Atacama, a fronteira estava fechada, porém a fronteira por Calama estava aberta. Então iríamos acordar 4 da manhã para chegar na fronteira com Calama e entrar no Chile.

Foi a noite mais difícil da minha vida, e olha que eu dividi a cama com a minha amiga que tava passando mal, pra tomar conta dela. O frio era insuportável e qualquer movimento gerava uma aceleração no coração, por conta da altitude, que incomodava mesmo. Eu, basicamente, não dormi.

No dia seguinte, todos, acabados, estavam prontos para o café e para partir rumo ao Chile. Nevou tanto de noite que o carro estava coberto e o Emílio estava com a pá tirando a neve.

Demoramos, aproximadamente 4 horas para chegarmos na fronteira com o Chile por Calama (Isso, porque até Calama levaria mais 5 horas, e até o Atacama mais 1 hora).

Nesse intervalo minha bexiga falou comigo e eu tive que me aliviar no deserto mesmo, era isso ou passar mal.

O Emílio nos levou até a fronteira, houve uma pequena confusão porque pagamos o transporte até o Chile, porém, como não era na fronteira certa, tínhamos que pagar de novo, mas o Emílio devolveu o dinheiro.

Com muito custo conseguimos um mini ônibus para atravessar a fronteira e nos levar até San Pedro de Atacama e… A FRONTEIRA ESTAVA FECHADA POR CONTA DE GREVE! Era meio dia, ela só iria abrir 3 da tarde. Imagina o nosso estado nesse momento, sem comida, só com as bananas que eu comprei em Sucre. Foi banana para todo mundo.

MUITO IMPORTANTE!

Não pode entrar com nada orgânico no Chile, isso inclui folhas de coca e as bananas. Então verifique se não há alimentos.

Quando a fronteira abriu, respondemos ao questionário que nos dão, fomos na imigração e carimbaram nosso passaporte. Lá, pegaram o papel que recebemos quando entramos na Bolívia e nos deram um novo, agora do Chile. Na alfândega eles abrem realmente tudo da sua mochila, até minhas calcinhas foram revistadas.

Primeira imagem do Chile
CHI CHI CHI LÊ LÊ LÊ VIVA CHILE

Passado isso, partiu uma longa viagem de 6 horas, sem dinheiro para comer, no Chile.

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Autor: Paola Groberio

Carioca, 24 anos e estudante de História na Uff. Tenta conciliar sua rotina com viagens sempre que pode, porque não consegue passar um dia sem pensar em viajar. Quando consegue, pega sua mochila e parte por aí para passar por perrengues e ter as melhores experiências possíveis.

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